A Revolta da Chibata

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O ALMIRANTE NEGRO DA GUANABARA

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O LEVANTE DOS MARINHEIROS EM 1910

Os seis dias de reinado de João Cândido na Baía da Guanabara começaram na noite de 22 de novembro de 1910. A bordo do poderoso encouraçado Minas gerais, uma fortaleza flutuante de ferro e aço armada com 44 canhões e tripulada por 1.173 homens, ele comandou o início de uma versão brasileira do motim do encouraçado Potemkin, que cinco anos antes assombrava o mundo ao desafiar o poder da Rússia Imperial. Na agenda de reivindicações, nenhum tema político, apenas o fim dos castigos corporais a bordo dos navios, que colocavam tripulantes à mercê de violência dos oficiais.

O levante vinha sendo preparado havia tempo. Por uma ironia da História, as próprias autoridades propiciaram as condições que levaram os marinheiros à revolta. Embarcando num programa de modernização da esquadra no início do século XX, o governo encomendou navios na Inglaterra, e para lá mandou centenas de homens a fim de aprenderem a manejar as embarcações, duas delas entre as mais poderosas da época: os encouraçados Minas Gerais e São Paulo, de 20 mil toneladas cada. Nos meses em Newcastle, cidade de estaleiros com um ativo movimento sindical, os marinheiros brasileiros fizeram um intensivão em mobilização e lutas sociais. Insuflados por João Cândido, organizaram-se para a revolta.

– A vida deles em Newcastle era muito mais livre do que no Brasil, porque ficaram sem supervisão de oficiais superiores: a patente mais alta era de sargento – explica o historiador Zachary Ross, professor do Boston College, nos EUA, e autor de uma tese de doutorado sobre castigos corporais na Marinha brasileira. – A viagem marcou o nascimento de uma consciência política. No tempo em que ficaram na Inglaterra, eles aprenderam a ser cidadãos e decidiram enfrentar o Estado brasileiro.

Tudo marcado para 25 de novembro, os acontecimentos foram precipitados para a noite do dia 22 por uma sessão de 250 chibatadas no marinheiro Marcelino Menezes. a punição usual de 25 açoites foi decuplicada porque Marcelino, além de levar cachaça a bordo, esfaqueou o cabo que o denunciou. Ao todo, seis oficias morreram no levante, que logo se espalhou, com os encouraçados São Paulo e Deodoro e o cruzador Bahia também erguendo bandeiras rebeldes. Apanhado de surpresa, o governo do marechal Hermes da Fonseca, empossado uma semana antes, ficou estático. “Não queremos a volta da chibata”, exigia o manifesto enviado às autoridades: “Queremos a resposta já e já. Caso não a tenhamos, bombardearemos as cidades e os navios que não se revoltarem”.

Com 120 canhões apontados para a capital, a ameaça desencadeou o pânico na população, que fugiu das áreas próximas ao porto. Alguns disparos feitos pelos rebeldes contra a cidade, com duas vítimas no Morro do Castelo, mostraram que os marinheiros falvam a sério. Impotentes diante do poder de fogo da esquadra sublevada, não restou saída às autoridades. A capitulação veio no sexto dia.

Embora não houvesse a intenção de derrubar o governo, a ação deles foi revolucionária num certo sentido, porque foi uma ação armada que atingiu a hierarquia militar e mudou a lei vigente, que era injusta.

Sem digerir a revolta, o governo jogou no lixo o decreto de anistia, e, na cadeia, alguns marinheiros rebeldes. Com expulsões e prisões e a boataria rolando solto, um novo levante de fuzileiros navais na Ilha das Cobras, em 9 de dezembro, deu às autoridades o pretexto para agir. Dos 600 revoltosos, sobreviveram pouco mais de uma centena ao furioso bombardeio, que prosseguiu mesmo com a bandeira branca içada. João Cândido, que se declarou contra a rebelião, também foi preso.

A vingança das autoridades foi exemplar: jogados numa cela empapada com cal virgem na Ilha das Cobras, de um grupo de 18 presos, apenas dois sobreviveram. João Cândido foi um deles. Outros 105 homens foram enviados a trabalhos forçados na Amazônia, sendo sete fuzilados no caminho. Internado num manicômio, somente em 1912 João Cândido foi julgado e absolvido. Expulso da Marinha, sobreviveu como estivador e carregador de peixes na Praça XV. Morreu em 1969, sem ver o movimento que liderou ter o merecido reconhecimento. Tal caminho, aberto em 1959 por Edmar Morel, desembocou na anistia – sem indenização – assinada pelo presidente Lula em 2008.

 

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