AS GRANDES REVOLUÇÕES DO SÉCULO XX

I – A REVOLUÇÃO MEXICANA

O processo de independência na América Hispânica, conforme salientado por vários estudiosos, não trouxe profundas transformações no antigo quadro colonial. No México, os traços eminentemente agrários e excludentes de sua economia ganharam maior força durante a ditadura estabelecida por Porfírio Diaz. Governando o México de 1876 e 1911, o chamado “porfiriato” teve como missão política maior preservar os privilégios da elite que abraçou o movimento de independência.

Nesse período, a sociedade mexicana era formada por maioria de analfabetos que somavam um total de 11 milhões de pessoas. Grande parte dessa massa desinformada e miserável era composta por indivíduos de origem indígena submetidos ao desmando legitimado dos grandes proprietários de terra. Nesse contexto, notaremos a formação de um movimento popular afastado dos grandes círculos de discussão ideológica e política, marcado por seu caráter popular e social.
Nos primeiros anos do século XX, camponeses começaram a se mobilizar em torno de um projeto reivindicatório que defendia maior acesso às terras. Nos centros urbanos, a oposição ao status quo se manifestava na ocorrência de greves operárias e críticas de jornal. Todo esse processo de oposição chegou ao ápice quando Porfírio Diaz anunciou sua renúncia, em 1911. Logo em seguida, defendendo a ampliação de direitos políticos, Francisco Madero foi eleito com um amplo apoio de uma população seduzida por promessas de reforma social e fim da exclusão social.
As expectativas de uma população asfixiada por todo esse processo de segregação cercaram a posse do novo presidente mexicano. Os camponeses já se mobilizavam em torno de uma reforma agrária, ampliação dos direitos e liberdades, e a valorização do elemento indígena na sociedade mexicana. Sobre o lema “terra e liberdade”, os trabalhadores rurais foram liderados por Emiliano Zapata – caudilho da região sul – e Pancho Villa, camponês pobre da parte meridional.
A administração de Madero, em pouco tempo, tornou-se sinônimo de frustração. A insatisfação camponesa se traduziu na intensificação das revoltas contra os latifúndios e ações de combate direto. Francisco Madero, fazendo jus à sua ação demasiadamente reformista, não apoiou a ação campesina e protegeu os grandes proprietários de terra. O potencial revolucionário logo alertou as potências industriais que, na época, adotavam ações intervencionistas no continente americano.
O andamento da revolução mexicana se intensificou quando Madero foi assassinado a mando do comandante do Exército Victoriano Huerta. O militar tentou reduzir a onda revolucionária através da criação de um regime ditatorial. No entanto, as ações dos camponeses liderados por Zapata e Villa forçaram a queda do governo Huerta, em 1914. Um novo governo constitucional foi estabelecido com a eleição de Venustiano Carranza.
A revolução mexicana tomava força enquanto as elites agrárias tentavam reorganizar o cenário político nacional. No ano de 1917, uma nova carta constitucional foi criada, legitimando o governo Carranza. Os revolucionários não apoiaram o novo presidente e se mantiveram em situação de luta. No entanto, a morte de Emiliano Zapata, em 1919, e de Pancho Villa, em 1923, causou o desmembramento da classe subalterna mexicana, dando fim ao processo revolucionário.

Já na década de 1930, o México entrou por um processo de estabilidade política, apesar de o capitalismo mundial ter passado por uma intensa crise a partir de 1929. O novo governo de Lázaro Cárdenas, ocorrido entre 1934 e 1940, inseriu-se dentro do que uma vasta gama de historiadores denominou de populismo, apesar de haver uma divergência sobre essa caracterização. Ainda dentro do populismo, inseriram-se os governos de Getúlio Vargas, no Brasil, e o de Juan Perón, na Argentina. O principal objetivo do governo de Lázaro Cárdenas foi o de modernizar a economia e a sociedade mexicana, medida expressa principalmente em seu Plano Sexenal. 

Cárdenas entrou na vida política ainda durante a Revolução Mexicana, quando em 1913 aderiu ao Exército revolucionário. Sua capacidade autodidata o favoreceu a galgar postos mais altos na hierarquia militar. Em 1928, Cárdenas tornou-se governador do estado de Michoacán. Em 1931, passou a ser o presidente do Partido Revolucionário Nacional (PRN), que se dizia herdeiro da revolução de 1910.  

Essa posição no PRN proporcionou a Cárdenas candidatar-se à presidência da República e ser eleito em 1934. Seu mandato à frente do governo mexicano pautou-se pela tentativa de estimular a modernização da sociedade mexicana e de atender algumas das reivindicações que foram exigidas durante a revolução.

Uma das principais ações foi a realização de uma reforma agrária que distribuísse terras aos camponeses mexicanos. Em muitas localidades, os ejidos (parcelas de terras distribuídas pelo governo aos camponeses) distribuídos foram trabalhados de forma comunal, buscando estreitar os laços entre os camponeses. Foram também distribuídas armas aos camponeses para que estes pudessem se defender das forças conservadoras, principalmente as ligadas ao exército. Esse armamento dos camponeses fortalecia as posições dos oficiais ligados a Cárdenas dentro do Exército.

O apoio ao movimento operário com a liberação da realização de greves pretendia também atender às demandas dessa classe social, ao mesmo tempo em que buscava seu apoio contra os grandes capitalistas. Nesse sentido, Cárdenas incentivou a criação de sindicatos e durante seu mandato formou-se a Confederação dos Trabalhadores Mexicanos (CTM), que incorporou a Central Geral dos Operários e Camponeses Mexicanos e outras centrais sindicais. Foram ainda garantidos direitos trabalhistas e outros direitos sociais aos trabalhadores.

A luta dos trabalhadores contra as condições salariais e de trabalho impostas pelas companhias petrolíferas estadunidenses e britânicas serviu de motivo para que Cárdenas nacionalizasse as riquezas do subsolo do México, passando o Estado a controlar a exploração do Petróleo através da PEMEX (Petróleos Mexicanos). Essa medida também criou uma oposição dos governos e dos capitalistas dos dois países anglo-saxões, mas que foi diminuída durante a II Guerra Mundial em virtude da necessidade de suprimento dos derivados do petróleo aos exércitos aliados.

Essas determinações de Lázaro Cárdenas visavam atribuir ao Estado um poder centralizador de gestão do desenvolvimento capitalista no México. A transformação do PRN em Partido Revolucionário Mexicano (PRM) pretendia também aproximar as massas dessa instituição política e constituir as bases de um partido único no país.

No que se referia à política externa, o governo de Cárdenas foi ainda caracterizado pela aceitação de diversos exilados políticos no país, notabilizando-se os casos dos combatentes espanhóis da Guerra Civil Espanhola e do líder bolchevique Leon Trotsky.

Outro ponto a se destacar no governo de Cárdenas foi o incentivo dado à educação da população trabalhadora e camponesa do México. Com o estímulo à educação socialista, buscava-se retirar a influência religiosa católica do processo educacional, dando caráter mais laico à educação e criando as condições de formação de uma consciência da população que proporcionasse o desenvolvimento de uma Nova Nação. Essas medidas aproximavam-no mais de um governo nacionalista que propriamente socialista.

Alguns historiadores não concordam com a definição de governo populista dada à forma de governo executada por Cárdenas, pois este não buscou colocar o Estado acima das classes, com o intuito de harmonizar as relações sociais. Cárdenas afirmava a existência da luta de classes e posicionava-se ao lado dos trabalhadores.

Mas, por outro lado, a forma de centralização do Estado e de gestão dos interesses sociais por esta instituição aproximava o modelo de ação de Cárdenas do corporativismo, desenvolvido inicialmente pelos governos fascistas europeus.

Tais medidas mostraram que houve uma similitude em várias ações estatais adotadas pelos governos na década de 1930, como resposta à crise econômica ocorrida após a queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque. Essas medidas eram respostas à crise do modelo liberal de administração econômica e social, passando o Estado a ser a principal instituição gestora da sociedade capitalista.

 

II – A REVOLUÇÃO RUSSA

1-FATORES DA REVOLUÇÃO
 

            Em 1894, subiu ao trono russo o czar Nicolau II. Desde o século XVI, o país era uma monarquia absolutista. A nobreza era proprietária de 25% das terras cultiváveis do país, e a grande maioria da população – mais de 80% – estava ligada direta ou indiretamente à terra.  

 As condições de vida da maior parte dos camponeses eram péssimas. Em geral, eles habitavam moradia precária e sem ventilação. Alimentavam-se basicamente de pão preto, batata e torta de farinha de milho. Nas aldeias raramente havia escolas, e a maior parte da população era analfabeta. 

No plantio e na colheita eram usados instrumentos agrícolas antigos, como o arado de madeira e a foice. Apenas em algumas grandes propriedades adotava-se uma tecnologia moderna, que permitia o aumento da população.

Nas cidades, a vida não era muito diferente da do campo. Em 1838, uma investigação feita pelo Conselho Municipal de Moscou, abrangendo milhares de casas dessa cidade, mostrou que grande parte da população vivia em péssimas habitações:

            “… As escadas que conduzem aos sótãos, onde o povo reside, estão cobertas de toda espécie de imundície. As próprias habitações estão quase cheias de tábuas sujas sobre as quais se estendem colchões de palhas pestilentos, tendo os cantos tomados pela porcaria. O cheiro é desagradável e asfixiante“.

            Com uma economia essencialmente agrária, a Rússia tinha poucas indústrias; a maior parte dela pertencia a proprietários estrangeiros, principalmente franceses, ingleses, alemães e belgas. No começo do século XX, um russo descrevia assim as condições de vida dos operários:

            “Não nos é possível ser instruídos porque não há escolas, e desde a infância devemos trabalhar além de nossas forças por um salário ínfimo. Quando desde os 9 anos somos obrigados a ir para a fábrica, o que nos espera? Nós nos vendemos ao capitalista por um pedaço de pão preto; guardas nos agridem a socos e cacetadas para nos habituar à dureza do trabalho; nós nos alimentamos mal, nos sufocamos com a poeira e o ar viciado, até dormimos no chão, atormentados pelos vermes…

2 – O DECLÍNIO DO CZARISMO

            Os problemas internos da Rússia se agravaram ainda mais após a guerra Russo-Japonesa (1904-1905). A origem do conflito foi a disputa entre os dois países por territórios na China e por áreas de influência no continente. A derrota ante os japoneses mergulhou a Rússia numa grave crise econômica e aumentou o descontentamento de diferentes grupos sociais com o czar Nicolau II. Começaram a ocorrer greves e movimentos reivindicatórios, duramente reprimidos pela polícia czarista.

            Num domingo de janeiro de 1905, trabalhadores de São Petersburgo, então capital do Império Russo, organizaram uma manifestação para entregar a Nicolau II um documento em que reivindicavam melhores condições de vida e melhores salários. Uma multidão de cerca de 200 mil pessoas, entre elas crianças e mulheres, dirigiu-se ao Palácio de Inverno, residência do czar. As tropas do governo, que estavam de prontidão, receberam os manifestantes com tiros de fuzil.

            O incidente, que ficou conhecido como Domingo Sangrento, provocou conflitos em toda a Rússia.

            Tentando diminuir as tensões sociais, o czar Nicolau II criou a Duma, espécie de Parlamento. Contudo, os deputados eleitos das quatro primeiras dumas foram de tal maneira pressionados pelo czar que pouco puderam fazer.

            Esse ambiente contribuiu para a difusão e a aceitação das ideias socialistas – sobretudo as elaboradas pelos alemães Karl Marx e Friedrich Engels – entre os movimentos sociais russos. Assim, essas ideias se tornariam a base da Revolução Russa.

            Em 1905, surgiram os sovietes de trabalhadores, conselhos que se encarregavam de coordenar o movimento operário nas fábricas. Os sovietes teriam papel decisivo na revolução de 1917.

 

3 – O COMEÇO DA REVOLUÇÃO

            Em agosto de 1914 a Rússia entrou na Primeira Guerra Mundial contra a Alemanha e a Áustria-Hungria. Nicolau II acreditava que por meio da guerra pudesse expandir o Império Russo e diminuir a insatisfação popular.
           No entanto, o fato acentuou o descontentamento e precipitou o processo revolucionário. A guerra agravou a situação econômica e social do país. Os soldados, mal-armados e mal alimentados, foram dizimados em derrotas sucessivas. Em dois anos e meio de guerra, a Rússia perdeu 4 milhões de pessoas.

           Em 1915, o czar Nicolau II decidiu assumir pessoalmente o comando do Exército, deixando o governo nas mãos de sua esposa, a Imperatriz Alexandra, e de Rasputin, um monge que agia como conselheiro do czar.
            Em 1917, a escassez de alimentos era muito grande e provocou uma série de greves. Em 27 de fevereiro desse mesmo ano, uma multidão percorreu a capital do Império pedindo pão e o fim da guerra. Os manifestantes também criticavam o sistema monárquico.
            A polícia e o exército, agora ao lado dos manifestantes, não reprimiram o movimento. Isolado, o czar abdicou, e um governo provisório foi constituído, chefiado pelo príncipe George Lvov. Esse governo, dominado pela burguesia russa, decidiu continuar na guerra, com planos de uma grande ofensiva contra a Áustria-Hungria.
            A população russa, porém, discordava dessa orientação. O governo, sem controle de seus exércitos, não tinha forças para impedir as deserções dos soldados. Havia ainda a constante elevação dos preços dos gêneros alimentícios, contra a qual o governo nada conseguia fazer.
            Nesse momento, grupos revolucionários já desenvolviam intensa atividade nas cidades, reativando os sovietes de trabalhadores, com o objetivo explícito de tomar o poder.

            A ofensiva do novo governou contra a Áustria-Hungria fracassou. Isso agravou ainda mais a situação e provocou uma grande manifestação no dia 17 de julho de 1917, na capital do Império. Era o fim do governo provisório de Lvov, substituído por Alexander Kerenski.

            Naquele momento, três grupos e três diferentes propostas políticas se defrontavam pelo poder:

 O Partido Democrático Constitucional, partido da burguesia e da nobreza liberal, favorável à continuação da guerra e ao adiamento de quaisquer modificações sociais e econômicas.

 Os bolcheviques – maioria, em russo -, que defendiam o confisco das grandes propriedades, o controle das indústrias pelos operários e a saída da Rússia da guerra. Graças ao controle cada vez maior que exerciam sobre os sovietes de operários e soldados, sua força crescia continuamente. Seus dois principais líderes eram Vladimir Lenin e Leon Trotski.

 Os mencheviques – minoria, em russo -, que, embora contrários à guerra, não admitiam a derrota da Rússia. Divididos internamente e indecisos quanto aos rumos que o país deveria tomar, foram perdendo importância política.

4 – ENFIM, A REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE – SOCIALISTA – O COMUNISMO DE GUERRA (1917-21)

            A partir de agosto de 1917, os bolcheviques passaram a dominar os principais sovietes e a preparar a revolução.

            No soviete Petrogrado, novo nome de São Petersburgo, foi constituído o Comitê Militar para a Realização da Revolução.
            Sob o comando de Trotski, no dia 25 de outubro, os bolcheviques ocuparam os pontos estratégicos de Petrogrado e o Palácio do Governo. Kerenski, abandonado por suas tropas, foi obrigado a fugir.
            Na manhã do dia seguinte, os sovietes da Rússia, reunidos em Congresso, confirmavam o triunfo da revolução, confiando o poder a um Conselho de Comissários do Povo. O Conselho era presidido por Lenin.
            As primeiras medidas do governo revolucionário foram:
* retirada da Rússia da guerra;

* supressão das grandes propriedades rurais, confiadas agora à direção de comitês agrários;

* controle das fábricas pelos trabalhadores;

* criação do Exército Vermelho, com a finalidade de defender o socialismo contra inimigos internos e externos.

Logo depois, os bolcheviques adotaram o sistema de partido único: Partido Comunista.

A DEFESA DA REVOLUÇÃO: TROTSKI E O EXÉRCITO VERMELHO
            Após a tomada do poder pelos revolucionários, a Rússia viveu ainda três anos de guerra civil. Nesse processo, a participação de Leon Trotski, um dos mais importantes líderes da revolução, foi fundamental.
            Culto e com grandes capacidades de persuasão, Trotski comunicava-se bem tanto com operários e camponeses quanto com uma plateia de intelectuais e diplomatas.

            Quando irrompeu a guerra civil, a organização das tropas de defesa, o Exército Vermelho, ficou sob sua responsabilidade. Em condições extremamente precárias, com o país esgotado, recém-saído da Primeira Guerra Mundial, Trotski conseguiu formar um exército forte e eficiente.
            Com o apoio popular, as tropas revolucionárias enfrentaram o Exército Branco, composto por antigos oficiais do czar e prisioneiros do exército austríaco. Além disso, enfrentaram tropas de países europeus, que temiam que a revolução socialista se espalhasse pelo continente.

5 – A CONSOLIDAÇÃO DA REVOLUÇÃO RUSSA – A NEP

            Sob a direção de Lenin e com um plano que ficou conhecido como Nova Política Econômica (NEP), os bolcheviques deram início à recuperação da economia russa. Elaborada em 1921, a NEP procurou concentrar os investimentos nos setores mais importantes da economia. Entre as medidas adotadas encontravam-se:

* produção de energias e extração de matérias-primas;
* importação de técnica e de máquinas estrangeiras;
* organização do comércio e da agricultura em cooperativas;
* permissão para a volta da iniciativa privada em diversos setores da economia, como o comércio, a produção agrícola e algumas formas de atividade industrial. Todos os investimentos tinham o rígido controle do Estado, muitos deles eram feitos em empresas estatais.

            Vários Estados que tinham se separado da Rússia durante a revolução – como a Ucrânia – voltaram a se integrar e formaram, em 1922, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), um Estado federativo composto por quinze repúblicas.

            Com a morte de Lenin, em 1924, Stalin (secretário-geral do Partido Comunista) e Trotski passaram a disputar o poder. Stalin defendia a ideia de que a União Soviética deveria construir o socialismo em seu país e só depois tentar levá-lo a outros países; Trotski achava que a Revolução Socialista deveria ocorrer em todo o mundo, pois enquanto houvesse países capitalistas, o socialismo não teria condições de sobreviver isolado.
            Stalin venceu a disputa. Trotski foi expulso da URSS. A União Soviética ingressou, então, na fase do planejamento econômico. Foi a época dos planos quinquenais, inaugurada em 1928. Os planos se sucederam a transformaram a União Soviética numa potência industrial. Contudo, a violência foi amplamente empregada pelo governo stalinista para impor sua política. Para silenciar o seu grande opositor – Trotsky – Stalin patrocinou o seu assassinato, através de Ramón Mercader, no México, em 1940.

 

III – A REVOLUÇÃO CHINESA

Ao longo de sua história, a China foi um importante referencial tecnológico e cultural para várias populações asiáticas. Durante a Idade Moderna, os chineses contavam com um comércio articulado por uma imensa frota que cruzava o mundo com suas mercadorias. Essa época perdeu seu vigor na medida em que os interesses das nações estrangeiras tomaram espaço. No século XIX, a China se transformou em um território entrecortado por regiões dominadas pelas grandes nações imperialistas.

No século XX, vemos que setores significativos da população chinesa começaram a defender a consolidação de um movimento de natureza nacionalista. Em 1900, o médico Sun Yat-sen capitaneou a fundação do Kuomintang, também conhecido como Partido Nacionalista. Nessa mesma época, a Revolta dos Boxers (1898 – 1901) também teve grande contribuição para a articulação de um movimento defensor da autonomia chinesa e a expulsão dos estrangeiros.

A agitação provocada por tais movimentos acabou produzindo a Proclamação da República, em 1911. Mesmo com essa conquista e o enfraquecimento dos imperialistas após a Primeira Guerra Mundial, a China continuava não resistindo ao interesse dos estrangeiros, principalmente dos japoneses e britânicos. Com isso, os membros do Kuomintang tiveram de enfrentar a insatisfação dos chefes militares e do Partido Comunista Chinês, então criado sob a influência da Revolução Russa.

Em 1925, o governo chinês foi assumido por Chiang Kai-shek, que deu início a um vigoroso movimento contra as lideranças comunistas. Nesse momento, os comunistas foram obrigados a recuar politicamente e estabelecer um projeto revolucionário que pudesse transformar a China. Em 1934, sob a liderança de Mao Tsé-tung, os camponeses foram mobilizados para realizarem a “Longa Marcha”, que pretendia impor a distribuição de terras e a luta contra as forças imperialistas.

Após a Segunda Guerra Mundial e a derrota dos japoneses, o regime de Chiang Kai-shek tentou mais uma vez realizar a perseguição aos comunistas. Contudo, sendo considerado um “cúmplice do estrangeiro”, o governo oficial foi gradativamente derrotado pelos exércitos do Partido Comunista Chinês. Invadindo a cidade de Pequim em janeiro de 1949, o exército revolucionário impôs a criação da República Popular da China.

Sob a liderança de Mao Tsé-tung, os chineses reorganizaram o país sob a orientação expressa do ideário comunista. O novo governo traçou um plano econômico quinquenal que pretendia impulsionar a agricultura e a indústria. Paralelamente, as tropas comunistas impuseram uma terrível perseguição contra todos aqueles que não aderiram às políticas revolucionárias. No plano político internacional, os chineses optaram pela formação de um Estado socialista independente da orientação soviética.

Após a conquista do poder em 1949, a participação na Guerra da Coreia e o sucesso do 1º Plano Quinquenal (1953-1957), o líder chinês Mao Tsé-tung lançou o Grande Salto para Frente (1958-1962), um programa de profundas reformas cujo objetivo era acelerar a marcha para o comunismo.

Um das criações do Grande Salto foram as Comunas Populares. Elas iriam substituir as antigas cooperativas de produção agrícola, buscando suprimir os últimos resquícios de propriedade privada. As Comunas reuniam cerca de 20 mil a 30 mil pessoas, criando uma unidade social, agrícola, industrial, administrativa, cultural, médica e militar. Eram administradas por um Comitê Central que controlava a produção e organizava as Brigadas de Trabalho.

Essa alteração da direção dos caminhos da revolução deslocava o centro dos investimentos do Estado para o campo e não mais para as indústrias de base localizadas nas cidades. Um dos objetivos era unir a produção agrícola e industrial, ao instalar equipamentos industriais em áreas rurais. Dessa forma, o Grande Salto pretendia superar a divisão entre campo e cidade, instituída pelo capitalismo desde sua gênese.

Mas para alguns historiadores, a política do Grande Salto visava a uma transformação muito mais cultural que meramente econômica da população chinesa. O objetivo era incentivar as massas populares a tomarem a iniciativa na condução de alguns aspectos da vida social, mas evidentemente com limites impostos pelo Estado.

Com o incentivo à participação popular, Mao pretendia contrabalancear o poder da burocracia partidária e estatal, incentivando a produção cultural, como o estímulo à escrita de contos e poesias por pessoas semiletradas; criar uma defesa militar popular; proporcionar a participação da mulher no mercado de trabalho, criando condições para o abandono de alguns trabalhos domésticos com a centralização desse tipo de trabalho em lavanderias e cozinhas coletivas e com a criação de creches comunitárias. Além disso, os dirigentes chineses buscaram criticar a divisão entre trabalho manual e intelectual enviando milhares de intelectuais e artistas para trabalharem no campo. Essa medida servia também para retirar dos grandes centros urbanos os opositores de dentro do partido, minando assim sua influência.

Porém, o Grande Salto não resultou no crescimento econômico previamente calculado. As colheitas agrícolas foram prejudicadas pelas secas e inundações de algumas regiões, bem como a produção de matérias-primas para as indústrias; máquinas se desgastaram devido ao uso intensivo ou mesmo pela falta de conhecimento técnico capaz de operá-las. Este último ponto foi intensificado pelo fato de a China ter-se distanciado da URSS e perdido a cooperação técnica com o vizinho do norte. O conflito sino-soviético fez com que a URSS retirasse vários de seus especialistas técnicos industriais da China, após uma série de desentendimentos entre os dois países, que ia desde a falta de apoio da URSS na produção da bomba atômica chinesa até às críticas de Pequim sobre a deturpação dos ideais marxistas pelos dirigentes soviéticos.

O fracasso do Grande Salto para Frente enfraqueceu a liderança de Mao Tsé-tung, fazendo com que ele tentasse reconquistar o prestígio através do lançamento da Revolução Cultural, em 1966.

A Revolução Cultural Chinesa surgiu em decorrência das várias contradições sociais pelas quais passava a China depois da Revolução de 1949. O fracasso do Grande Salto para Frente, entre 1958 e 1962, e as divergências entre russos e chineses, expressas no conflito sino-soviético, afetaram a reorientação econômica do país, dando-se primazia à produção agrícola e à produção de bens de consumo.

Mao Tsé-tung foi o grande líder da Revolução Cultural Chinesa, apesar das ações dos trabalhadores terem fugido de seu controle. 

Mao Tsé-tung havia sido substituído na presidência da República por Liu Shao-chi (1959-1968) e lançou a Revolução Cultural Chinesa como forma de fortalecer novamente seus objetivos econômicos expressos no Grande Salto para Frente. A própria política do Grande Salto, segundo Lincoln Secco e José Mao Júnior, tinha uma conotação cultural que buscava substituir o cálculo dos burocratas pela inventividade das massas.

Para Mao, a Revolução Cultural era uma revolução dentro da revolução. Os objetivos principais eram eliminar a burocracia não maoísta do interior do Partido Comunista Chinês e dar iniciativa às massas de trabalhadores do campo e da cidade. Com isso, pretendia-se intensificar a produção econômica, estimulando os anseios revolucionários dos trabalhadores chineses para que fosse revertido em aumento de produtividade.

Incentivou ainda a adoção de relações mais igualitárias no interior da sociedade chinesa, levando a situações em que oficiais militares passaram a trabalhar em fábricas e intelectuais eram levados aos campos, com o intuito de reeducá-los contra a ideologia burguesa.

Formaram-se ainda guardas vermelhas e comitês de rebeldes revolucionários que, segundo Wladimir Pomar, passaram a aplicar a democracia direta nas fábricas e locais de habitação, em uma interpretação própria das diretrizes emanadas de Mao, seguindo o princípio de que as massas não deveriam ser tuteladas. As alas mais radicais da Revolução Cultural pretenderam ainda realizar uma profunda reforma educacional, abrindo espaço no ensino, principalmente superior, aos trabalhadores.

Com essas ações das alas radicais, os trabalhadores passaram a ultrapassar os objetivos iniciais pretendidos por Mao Tsé-tung. De acordo com João Bernardo, essas alas radicais passaram a questionar a burocracia como classe social, principalmente o mandarinato. A classe dos mandarins era uma burocracia milenar que havia se modernizado com o capitalismo, transformando-se em uma tecnocracia que geria o Estado chinês. E mesmo com a Revolução Chinesa de 1949, eles permaneceram no poder. Como os trabalhadores já haviam abolido a propriedade privada dos meios de produção material, pretendiam com a Revolução Cultural abolir a propriedade privada dos meios intelectuais de produção.

O resultado dessa ultrapassagem foi o ataque não só dos adversários de Mao como também dos gestores das empresas, sendo que os trabalhadores passaram a denunciar ainda as condições de salários e trabalho a que estavam sujeitos. E como aprofundamento do controle coletivo sobre a vida social e produtiva, a ala radical dos trabalhadores propôs a transformação da China em uma federação de comunas, em que seus dirigentes seriam livremente eleitos e poderiam ser substituídos a qualquer momento pelos membros das comunas.

À beira de uma guerra civil, a situação havia fugido dos objetivos propostos por Mao Tsé-tung. Trabalhadores interrompiam a produção para debater as situações políticas e de trabalho, além de atacarem os membros do partido, que consideravam como seus novos exploradores. Frente a isso, Mao decidiu pela militarização da Revolução Cultural, com um rígido controle social. O resultado foi o enquadramento militar de milhões de jovens, que adotavam o Livro Vermelho de Mao como cartilha.

Com a morte de Mao Tsé-tung, em 1976, e a subida de Deng Xiaoping ao poder, a Revolução Cultural chinesa teve fim. A partir daí, a China começou a viver uma experiência mista no plano econômico, entre socialismo e capitalismo. Entretanto, no plano político, a China continua com um regime de pouca liberdade política, como ficou comprovado em 1989, quando os estudantes foram reprimidos violentamente na Praça da Paz Celestial, em Pequim, devido a reivindicação de liberdade política.

 

IV – A REVOLUÇÃO CUBANA

Sendo uma das últimas nações a se tornarem independentes no continente americano, Cuba, em 1898, após a denominada Guerra Hispano-Americana (1895-98) – quando Cuba lutou contra a sua antiga metrópole (Espanha) – proclamou a formação de seu Estado independente sob o comando do intelectual José Martí e auxílio direto das tropas estadunidenses. A inserção dos estadunidenses nesse processo marcou a criação de um laço político que pretendia garantir os interesses dos EUA na ilha centro-americana. Uma prova dessa intervenção foi a criação da Emenda Platt (1901), que assegurava o direito de intervenção dos Estados Unidos no país. Além disso, em 1903, Cuba cedeu aos EUA a região de Guantânamo, que até hoje é controlado pelos ianques.

Dessa maneira, Cuba pouco a pouco se transformou no famoso “quintal” de grandes empresas estadunidenses. Essa situação contribuiu para a instalação de um Estado fragilizado e subserviente. De fato, ao longo de sua história depois da independência, Cuba sofreu várias ocupações militares estadunidenses, até que, na década de 1950, o general Fulgêncio Batista empreendeu um regime ditatorial explicitamente apoiado pelos EUA.
Nesse tempo, a população sofria com graves problemas sociais que contrastavam com o luxo e a riqueza existente nos night clubs e cassinos destinados a uma minoria privilegiada. Ao mesmo tempo, o governo de Fulgêncio ficava cada vez mais conhecido por sua negligência com as necessidades básicas da população e a brutalidade com a qual reprimia seus inimigos políticos. Foi nesse tenso cenário que um grupo de guerrilheiros se formou com o propósito de tomar o governo pela força das armas.

Sob a liderança de Fidel e Raul Castro, Camilo Cienfuegos e Ernesto “Che” Guevara, um pequeno grupo de aproximadamente 80 homens se espalhou em diversos focos de luta contra as forças do governo. Entre 1956 e 1959, o grupo conseguiu vencer e conquistar várias cidades do território cubano. No último ano de luta, conseguiram finalmente acabar com o governo de Fulgêncio Batista e estabelecer um novo regime pautado na melhoria das condições de vida dos menos favorecidos.

Entre outras propostas, o novo governo defendia a realização de uma ampla reforma agrária e o controle governamental sob as indústrias do país. Obviamente, tais proposições contrariavam diretamente os interesses dos EUA, que respondeu aos projetos cubanos com a suspensão das importações do açúcar cubano. Dessa forma, o governo de Fidel acabou se aproximando do bloco soviético para que pudesse dar sustentação ao novo poder instalado.

A aproximação com o bloco socialista rendeu novas retaliações dos EUA que, sob o governo de John Kennedy, rompeu as ligações diplomáticas com o país. A ação tomada no início de 1961 foi logo seguida por uma tentativa de contragolpe, no qual um grupo reacionário treinado pelos EUA tentou instalar – sem sucesso – uma guerra civil que marcou a chamada invasão da Baía dos Porcos. Após o incidente, o governo Fidel Castro reafirmou os laços com a URSS ao definir Cuba como uma nação socialista.

Para que a nova configuração política cubana não servisse de exemplo para outras nações latino-americanas, os EUA criaram um pacote de ajuda econômica conhecido como “Aliança para o Progresso”. Em 1962, a União Soviética tentou transformar a ilha em um importante ponto estratégico com uma suposta instalação de mísseis apontados para o território estadunidense. A chamada “Crise dos Mísseis” marcou mais um ponto da Guerra Fria e, ao mesmo tempo, provocou o isolamento do bloco capitalista contra a ilha socialista.

Com isso, o governo cubano acabou aprofundando sua dependência com as nações socialistas e, durante muito tempo, sustentou sua economia por meio dos auxílios e vantajosos acordos firmados com a União Soviética. Nesse período, bem-sucedidos projetos na educação e na saúde estabeleceram uma sensível melhoria na qualidade de vida da população. Entretanto, a partir da década de 1990, a queda do bloco socialista exigiu a reformulação da política econômica do país.

Em 2008, com a saída do presidente Fidel Castro do governo e a eleição do presidente Barack Obama, vários analistas políticos passaram a enxergar uma possível aproximação entre Cuba e Estados Unidos da América. Em meio a tantas especulações, devido a algumas concessões para o capitalismo, podemos afirmar que vários indícios levam a crer na escrita de uma nova página na história da ilha que, durante décadas, representou o ideal socialista no continente americano.

 

V – A REVOLUÇÃO NICARAGUENSE

No início do século XIX, passado o processo de independência mexicana, as regiões pertencentes à América Central experimentaram diversas transformações políticas em favor da formação de várias nações independentes. Na maioria dos casos, as elites locais obtinham o apoio estadunidense e britânico na formação de nações frágeis e incapazes de fazer frente aos interesses das potências capitalistas. Foi nesse contexto que notamos o surgimento da Nicarágua. Por volta da década de 1920, o camponês Augusto César Sandino iniciou a formação de um grupo revolucionário determinado a dar fim à intervenção imperialista em seu país. Entre outros pontos, Sandino defendia a realização de um projeto de distribuição de terras e saída dos militares americanos que ocupavam o território nicaraguense. Dessa maneira, os partidários de Sandino participaram de movimentos de guerrilha que atuaram no país entre 1926 e 1933. Após conseguir a saída das tropas estadunidense do país, Sandino aceitou assinar um acordo onde concordava em depor das armas mediante a preservação da soberania de seu país. A opção pela pacificação política permitiu que militares liderados por Anastásio Somoza Garcia empreendessem o assassinato do líder revolucionário e instalassem um governo ditatorial alinhado aos interesses ianques. Entre as décadas de 1930 e 1970, a família Somoza controlou os ditames da vida política nicaraguense.

Contudo, em 1961, um novo movimento guerrilheiro foi formado com o objetivo de acabar com a ingerência estrangeira e a opressão ditatorial. A partir da reunião de líderes, como Tomás Borge, Carlos Fonseca e Carlos Mayorga, fundou-se a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Seus partidários passaram a formar sindicatos, abrir escolas de alfabetização e organizar focos em favor do seu projeto de natureza socialista.

No início de 1978, uma guerra civil tomou conta do país após a morte do jornalista Pedro Joaquín Chamorro, que participava ativamente contra a ditadura da família Somoza. Por meio de batalhas contra as forças governistas, a FSLN conseguiu dominar o Palácio Nacional de Manágua, na capital do país. Chegando ao poder por meio da formação da Direção Nacional da Frente Sandinista de Libertação Nacional, o novo governo representado por Daniel Ortega prometeu dar fim às mazelas que tomavam o país. No plano político interno, os sandinistas promoveram uma aproximação com as nações do bloco socialista. Além disso, prometiam um amplo processo de desapropriação onde o Estado controlaria as terras e as demais forças produtivas do país. O projeto radical oferecido pelos sandinistas acabou não só incomodando os interesses do bloco capitalista, bem como de porções heterogêneas da população nicaraguense. Dessa maneira, a partir de 1981, formou-se uma ação contrarrevolucionária no país, sob a liderança de Edén Pastora, o Comandante Zero dos Contras. Os oponentes do governo sandinista, popularmente conhecidos como “Contras”, tiveram o apoio financeiro dos Estados Unidos e de membros da alta cúpula católica do país. Durante toda a década de 1980, o governo sandinista enfrentou uma grave crise econômica que ampliou as forças oposicionistas e colocou a Nicarágua à beira do caos. Em 1990, a crise acabou configurando uma derrota eleitoral dos sandinistas e a eleição de Violeta Chamorro. Somente após uma sequência de governos de tendência neoliberal e conservadora, os sandinistas se fortaleceram politicamente com as permanências dos problemas que afligiam a população. Em 2007, Daniel Ortega voltou à presidência com um discurso político moderado e com o apoio declarado dos norte-americanos. Hoje, o histórico líder da revolução de 1979 tem de enfrentar o atraso tecnológico, a inflação, o desemprego e a dívida externa que corroem a Nicarágua.