O GOLPE CIVIL-MILITAR DE 1º DE ABRIL DE 1964

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Quando Jango assumiu o governo brasileiro com plenos poderes, em 1963, ou seja, tendo em suas mãos os cargos de chefe de Estado e chefe de governo, as pressões populares se intensificaram em prol das denominadas Reformas de Base, exigindo do governo reforma agrária, restrição a remessa de lucros das multinacionais, ampliação dos direitos eleitorais (com voto do analfabeto e dos praças militares), reforma bancária, reforma do ensino universitário, reforma urbana etc.Todas essas reformas incomodavam setores da classe média, das forças armadas e do empresariado (tanto rural quanto urbano), que alegavam a ameaça comunista em nosso país. Um grande engano! As reformas visavam modernizar o capitalismo brasileiro, tornando-o mais humano e mais independente do capital estadunidense. Mas era o auge da Guerra Fria, tempos difíceis e de maniqueísmo total: para os EUA, a “democracia” e a “liberdade” – entendia-se como capitalismo – eram valores do mundo ocidental que não poderiam ser abalados; para a ex-URSS, o coletivismo e a igualdade – entendia-se como socialismo (“comunismo”) – eram valores fundamentais para a evolução do ser humano, a fim de chegar à justiça social. Assim, essa disputa se espalhou pelo mundo e chegou ao Brasil após a Segunda Guerra Mundial e, notadamente, no período Jango (1961-64) foi a atmosfera reinante em nossa sociedade. As greves, muitas vezes manipuladas por empresários (lock-out), tinham adesão crescente dos trabalhadores; a falta de alimentos no mercado aumentava, o que provocava a elevação dos preços; setores conservadores católicos se movimentavam contra o “comunismo” de Jango. Enfim, o caos rondava o país e a preparação para o golpe se tornava cada vez mais clara. A gota d’água foi o famoso decreto de 13 de março de 1964, quando João Goulart anunciou as Reformas de Base na Central do Brasil. A partir daí, os setores reacionários se mobilizaram para o golpe. Até os EUA prepararam uma esquadra para dar apoio, caso houvesse necessidade. Foi a Operação Brother Sam, ficando claro que a “democracia” estadunidense não aceitava a mudança da regra de seu jogo: a dependência do Brasil ao seu capital.

No dia 31 de março começou a marcha do Exército para ocupar as ruas das principais cidades, especialmente no Rio de Janeiro, considerado centro nervoso e político do país. No dia 1º de abril (“dia da mentira”) foi oficialmente dado o golpe: foi declarado inconstitucionalmente (Jango estava em território nacional) vago o cargo de presidente da República pelo senador Auro Moura de Andrade, que passou o cargo provisório para o presidente da Câmara de deputados, Ranieri Mazzili. Logo a seguir, iniciou o ciclo dos generais à presidência da República, através de eleição indireta.

Esse golpe teve uma diferença em relação aos outros ocorridos em nosso país, pois se tornou permanente. Tanto que alguns políticos – como Carlos Lacerda, Ulysses Guimarães e Juscelino Kubtischek – apoiaram, pois acreditavam que os militares sairiam de cena e os civis conservadores teriam chance de chegar à presidência da República. Como isso não aconteceu, em 1967, eles começaram a tentar um clima anti-golpista com a Frente Ampla, mas foram cassados, o que consolidou o regime de exceção em nosso país até 1985.

 

Agora vejam como a imprensa da época fez apologia ao golpe civil-militar de 1964:

1-Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos. Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais.
(O Globo – Rio de Janeiro – 2 de abril de 1964)

 

2- Multidões em júbilo na Praça da Liberdade.
Ovacionados o governador do estado e chefes militares. O ponto
culminante das comemorações que ontem fizeram em Belo Horizonte, pela
vitória do movimento pela paz e pela democracia foi, sem
dúvida, a concentração popular defronte ao Palácio da Liberdade. Toda
área localizada em frente à sede do governo mineiro foi totalmente
tomada por enorme multidão, que ali acorreu para festejar o êxito da
campanha deflagrada em Minas (…), formando uma das maiores massas
humanas já vistas na cidade.
(O Estado de Minas – Belo Horizonte – 2 de abril de 1964)

 

3- A população de Copacabana saiu às ruas, em verdadeiro carnaval, saudando as tropas do Exército. Chuvas de papéis picados caíam das janelas dos edifícios enquanto o povo dava vazão, nas ruas, ao seu contentamento.
(O Dia – Rio de Janeiro – 2 de abril de 1964)

4-[…] um governo sé rio, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular, está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social – realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama […].
(Editorial da Folha de S.Paulo por Octavio Frias de Oliveira – 22 de setembro de 1971

5- Ressurge a Democracia!
Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os
patriotas, independentemente das vinculações políticas simpáticas ou
opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é de essencial: a
democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas que, obedientes a seus chefes, demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.
Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ter
a garantia da subversão, a ancora dos agitadores, o anteparo da
desordem. Em nome da legalidade não seria legítimo admitir o assassínio
das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada…
(O Globo – Rio de Janeiro – 4 de Abril de 1964)

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