A Guerra das Pimentas (1646)

PIMENTA MALAGUETA

 

PIMENTA MALAGUETA
O FATO ACONTECEU EM ABRIL, no Monte das Trincheiras, na antiga vila de São Lourenço de Tejucupapo, hoje um pequeno distrito do município de Goiana, localizado a 60 quilômetros de Recife. Usando as armas que dispunham – como pedaços de pau e até água com pimenta– elas derrotaram invasores holandeses que, famintos, pretendiam roubar-lhes mandioca e farinha.

A Batalha de Tejucupapo foi um efeito colateral de uma ação específica, que é a Insurreição Pernambucana de 1645, segundo o prof. da Universidade Federal de Pernambucana. A Insurreição foi um movimento de rebeldia contra a Companhia das Índias Ocidentais, que cobrava taxas exorbitantes dos produtores de açúcar, que comandaram uma rebelião contra a empresa, impedindo que ela atuasse em Pernambuco. O príncipe Maurício de Nassau – com o qual as classes dominantes viveram tempos de boa paz – já tinha retornado à Holanda. Em 1645, a Insurreição estourou, tendo entre os seus líderes mais famosos Vidal de Negreiros, Henrique Dias e Filipe Camarão. Galindo lembra que os insurgentes impediam a chegada de abastecimento por navios e bloqueavam as vias terrestres com emboscadas.

Os holandeses que ficaram em Pernambuco para guerrear foram, aos poucos, entrando em fase de sérias privações. E passaram a invadir as áreas produtoras, em busca de comida. Tejucupapo foi uma delas.

Lembra Diogo Lopes de Santiago, em História da Guerra de Pernambuco, os holandeses que estavam na Ilha de Itamaracá, padecendo de fome, “determinaram fazer uma saída da ilha e dar na povoação de São Lourenço de Tejucupapo”, onde havia “roçarias de mandioca em muita quantidade e muitos legumes e frutas”. De acordo com o autor, 17 “lanchas” teriam sido usadas na empreitada “ora à vela, ora a remo”.

Quando os holandeses chegaram ao vilarejo, havia poucos homens – boa parte deles tinha deixado a área para guerrear. Mesmo assim, os que restaram se organizaram em uma paliçada, no interior da qual ficaram escondidas as mulheres e as crianças. Os holandeses atacaram os improvisados soldados e se julgaram vitoriosos. Mas ao entrar no reduto, se defrontaram com as mulheres. Elas tinham foices, enxadas, pedaços de pau, estrovengas (instrumento cortante usado na roça), fuzis e chuços (espécie de lanças). Segundo Diogo Lopes, as mulheres reprimiram o inimigo com grande valor e ânimo, deixando o natural temor das mulheres.

Há relatos posteriores de que elas teriam lançado mão até da pimenta, atirando-a nos olhos dos holandeses. Como relata um promotor de Goiana, Otávio Pinto, em um livro de meados do século XX, com base nos relatos orais que ouviu dos antepassados, as mulheres de Tejucupapo, “esmagavam pimenta malagueta com água e a jogavam nos olhos dos holandeses, quando esses punham a cabeça na brecha do tapume”.

Conforme Pinto, no livro Velhas histórias de Goiana, “a escritora Inês Mariz declarou que sua avó lhe contara ter visto certa vez uma gravura antiga de onde os holandeses apareciam tapando o rosto com as mãos, ao redor de um curral de pau a pique”.

De acordo com Galindo, 70 homens holandeses teriam morrido na batalha, mas não dados sobre as baixas, mas não há dados sobre as baixas brasileiras. Ele lembra, no entanto, que essas baixas, embora tenham representado uma vitória para Tejucupapo, não foram um número significativo na tropa como um todo, já que os holandeses tinham um contingente de 3 mil homens na região.

As mortes não afetaram numericamente a tropa flamenga, que não chegou a baixar o moral. A batalha é tratada pelos holandeses como uma escaramuça, uma coisa normal, cotidiana. Do ponto de vista histórico, sua importância realmente não é grande, tanto assim que grandes autores, como José Antônio Gonçalves de Melo, Evaldo Cabral de Mello Neto e o Visconde de Porto Seguro (Francisco Adolfo de Varnhagen) tratam do assunto episodicamente.

Jornal O Globo – Caderno Ciência – 6 de fevereiro de 2010.

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